Venderia meu filho por R$ 30 mil, diz moradora de rua de Maceió

201601221006_d28cab2a4a

Em um primeiro momento, Luciana responde à reportagem: “jamais venderia meus filhos”. Em seguida, surpreende dizendo que, “se aparecesse algum turista com R$ 30 mil…”. Este foi um rápido depoimento de uma mãe de 12 filhos, que deu 5 deles por não poder criar e explora os demais nas ruas do centro de Maceió com um único objetivo: mendigar. Uma realidade se misturando aos mais de 900 moradores que convivem direta e indiretamente nas ruas da capital, mas que recebem atendimento do Município.

Durante esta semana, a Gazetaweb contou com o apoio de membros da equipe de abordagem da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas) para visitar alguns bairros da cidade, onde conversou com várias famílias. A realidade de moradores de rua e da população em situação de rua é vista em praças públicas, supermercados, farmácias, escolas, restaurantes, lojas comerciais.

Na Praça Ministro Freitas Cavalcante, ao lado da Bompreço da Ponta Verde, Elias Mendes da Costa, conhecido como Miller, 48 anos, estava sentado em um dos bancos, descansando para uma nova jornada de trabalho com reciclagem. Ele é auxiliar de pintura, mas não consegue arrumar um trabalho. Natural da Barra de Santo Antônio, Elias tem casa no conjunto Rosane Collor, na Cidade Universitária, mas prefere morar na rua porque se sente bem e ganha R$ 200 por semana. “Volto para casa final de semana, mas, no fundo mesmo, queria sair da rua”, desabafa Elias, ao afirmar que só sabe assinar o nome.

Ana Maria dos Santos, 38 anos, é outra vítima da desigualdade social. Sem nenhuma documentação, a única alternativa encontrada por ele foi a reciclagem também. Afirma que gostaria de sair das ruas. “É ruim viver assim. Acordo logo cedo e tento ganhar alguma coisinha. Não tenho casa”, disse Ana Maria. O esposo, Cícero Martins, o “Seu Madruga”, disse estar feliz na rua, mesmo em meio às mazelas do mundo.

“Olhem, vou dizer uma coisa. Prefiro estar aqui, trabalhando com meu carrinho do que me envolver com corrupção e tudo o que é ruim. Sou de Deus, sou do bem e estou bem. Posso não ter estudo nenhum, ser o mais ignorante, mas tenho fé no meu coração e sabedoria para enfrentar as dificuldades”, diz Cícero.

201601221004_9207e1a8b0

‘E o material escolar deles?’

Na Praça da Assembleia Legislativa (ALE), uma família da cidade de Murici está acampada há quatro anos e viaja toda semana, para pedir dinheiro a pedestres e condutores. O detalhe é que as “reais vítimas” são crianças, ou seja, os filhos de pais que se acomodam nos bancos à espera do dinheiro ao final do dia.

Em uma entrevista, Luciana Maria da Silva, 42 anos, conhecida como “Bia”, fica revoltada no momento da foto e impede que gravações e outras imagens sejam feitas. Mesmo com residência fixa em Murici, ela não se contenta e vem com os filhos para a capital. Confirma que teve 12 filhos, já deu cinco e “cria” os demais. Ela diz que sabe dos riscos, mas “os meninos têm que pedir mesmo para comprar comida e material escolar”.

“Oxe, a gente fatura duzentos e cinquenta reais por semana. Dá para tirar um dinheiro bom. Tive que dar meus meninos porque não pude criar, mas jamais venderia. Até me ofereceram dez mil reais pelo meu pequeno. Agora, se chegasse um turista com uns trinta mil…”, comenta, sem terminar a frase. Luciana recebe o Bolsa Família e disse que, se cada filho rendesse uma bolsa, teria todo ano. “Estou pensando em ter mais outro”.

Busca ativa

Diariamente, as equipes de abordagem da Secretaria de Assistência Social faz buscas por moradores que jamais receberam auxílio. De acordo com a assistente social Alana Michelle de Almeida, é preciso esclarecer a diferença entre morador de rua e população em situação de rua. O primeiro vive na rua 24 horas por dia; já o segundo tem casa e usa as ruas como meio de sobrevivência.

Em primeiro lugar, o objetivo da equipe é criar um vínculo com aquele que está na rua o tempo todo e, muitas vezes, não sabe ou não quer sair dessa realidade. A aproximação tem início com uma entrevista e, após um longo diálogo, as necessidades do morador são encaminhadas para uma rede de órgãos parceiros, como o Sistema Nacional de Emprego (Sine), Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e Conselho Tutelar, que trabalham com políticas públicas. Ele também é incluído no programa de Habitação do Município.

“Existem várias equipes de abordagem aqui em Maceió. Uma delas é a do Centro de Referência Especializada para População em Situação de Rua, o Centro POP, situado na Avenida da Paz, no Jaraguá. Este centro acolhe a população das 8h às 17h, com várias atividades, além de refeição e banho. Além disso, contamos com os Creas [Centro de Referência Especializado de Assistência Social] nos bairros e o albergue municipal, no Poço”, explicou a assistente social.

Segundo a psicóloga Luciana Batista, o trabalho desenvolvido pelas equipes é de extrema importância. “Primeiro, prezamos em estabelecer o vínculo com aquele morador. Em seguida, vemos se tem documentação porque, sem isso, ele não conta com nenhum auxílio dos órgãos”, falou  a psicóloga.

Para a psicóloga Juliana Gomes, é preciso que o morador seja visível, o que não corresponde à realidade atual. “Para muitos, aquela pessoa que vive à margem não é vista, mas, para nós, ela é que precisa ser mais visualizada. Temos estrutura para desenvolver os trabalhos, mas só sentimos que poderia existir uma relação mais estreita com o Conselho Tutelar, porque muitas situações envolvem crianças e adolescentes”, comenta a psicóloga.

Marcela Correia da Silva, de 33 anos, criou os seis filhos na rua e, hoje, sente-se mais tranquila pelo atendimento no Centro POP. Como muitos, o sonho dela é ter um canto para morar. Há 13 anos, tenta sobreviver nas ruas da cidade. “Meus filhos ficam com meu irmão, atualmente. No passado, eu tinha uma casa, mas endoidei e vendi tudo. Percebo que a rua não é boa, muita coisa não presta e a qualquer momento posso morrer”, disse Marcela.

Semas

Maceió conta, atualmente, com 906 moradores de rua e pessoas em situação de rua. Destes, 10% passa 24 horas nas ruas, 5% são de outros estados e 20% de outros municípios. O número equivale aos atendimentos realizados de janeiro a novembro do ano passado, pela Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas). O quantitativo de dezembro ainda não foi fechado pelo órgão. Já em comparação ao ano de 2014, houve um aumento de 65 atendimentos.

Conforme explica a secretária de Assistência Social, Celiany Rocha, são várias as razões do aumento no número de moradores de rua, seja por maustratos, drogas, oportunidade de emprego, opção. Na questão do trabalho, a secretária é bem clara: “A gente acha que é mais difícil, mas a rua é rentável. Tem gente que ganha dois mil reais por mês e ainda diz que ganha mais que as equipes”.

De acordo com a gestora, as regiões que concentram grande número de moradores de rua são as orlas marítima e lagunar, o Centro e o conjunto Cidade Sorriso, no Benedito Bentes. Segundo pesquisas, 60% dos moradores da orla têm casa. A secretária acrescenta que existem quase 10 processos judicializados em virtude de crianças morando ou em situação de rua.

“Se a criança está em risco e os pais colocam os filhos para trabalhar, mesmo após as orientações da secretaria, o caso deve ir para a Justiça. Se não houver solução, eles perdem a guarda e as crianças vão para um abrigo. A política em questão não deve ser desenvolvida apenas pela Assistência Social, mas por outros órgãos e pela sociedade em geral. Todos nós devemos nos preocupar com aquele que sofre e se encontra à margem de tudo”, pontua a secretária.

Para quaisquer denúncias, a secretaria disponibiliza o disque-denúncia pelo 0800-284-8048.

‘Ele, hoje, tem a chave de casa’

Maria Machado de Oliveira é mãe de Rafael Machado Silva, 25, e, hoje, está aliviada porque o filho voltou a morar com ela, mas sem conviver com as drogas. Foram longos anos de sofrimento, pois o jovem era usuário e levava tudo da residência para pagar as dívidas e manter o vício. Revoltada diante da situação, ele foi expulso pela mãe e a única alternativa era a rua. Após um processo de reabilitação junto à Semas e a outros órgãos, conseguiu vencer os problemas.

“Eu falei pra ele: ‘não quero mais você aqui. Vá embora e um dia em que você se recuperar totalmente, pode voltar a morar comigo. Se você, meu filho, tiver uma recaída, não volta nunca mais. Tive até que mudar várias vezes de endereço porque ele descobria onde eu estava morando. Dei uma chance a ele, Rafael retornou, começou a trabalhar vendendo salgados em frente a órgãos públicos e colocou currículos em vários locais. Um dia, chegou feliz da vida dizendo que tinha conseguido um emprego na Secretaria de Assistência, onde hoje é funcionário, tem sua carteirinha assinada e cesta básica. Atualmente, tem a chave de casa. Portanto, sou grata a Deus por ter lapidado meu filho”, externou Maria. A reportagem tentou contato com Rafael, mas não obteve êxito.

Gazetaweb